CRÍTICA | UMA BATALHA APÓS A OUTRA

Magistral, Uma Batalha Após a Outra encapsula a ebulição política e social de um mundo em colapso sob o verniz de uma trama familiar com ação implacável

Por se tratar de algo diferente de tudo o que o diretor Paul Thomas Anderson já fez, seu décimo longa talvez seja a melhor definição de quando um cineasta autor atinge o auge de seus dons cinematográficos. Aqui, ele alcança o calibre máximo de uma narrativa tão revolucionária que poderia ter sido filmada há duas ou três semanas.

Em Uma Batalha Após a Outra, acompanhamos Bob Ferguson, vivido por um irrepreensível Leonardo DiCaprio. No papel de um ex-revolucionário assombrado pelas lutas do passado — e destruído por drogas e álcool —, ele sai da aposentadoria para enfrentar a missão mais importante de sua vida: resgatar a filha, Willa (Chase Infiniti). Bob conheceu sua então companheira, Perfidia Beverly Hills (Teyana Taylor), quando integrava o grupo de guerrilha French 75. Décadas depois, o cruel coronel Steven J. Lockjaw (Sean Penn) sequestra Willa por razões obscuras, obrigando-o a encontrá-la antes que seja tarde demais.

São 2 horas e 42 minutos de projeção, tempo suficiente para que a narrativa seja executada em toda a sua potência. Pela primeira vez colocando sua trama no século XXI, o diretor, carinhosamente chamado de PTA, já choca no prólogo, em que o grupo revolucionário age em um campo de deportados.

Soa atual? E como. Revestido por ação incessante e um núcleo emocional reconhecível — o de um pai que a todo custo precisa salvar a filha —, o épico examina algo muito maior: a paranoia racista e sua organização cada vez menos disfarçada, a utopia de liberdade em meio à supressão do fascismo. Está tudo lá, pois este é o filme dos nossos tempos sombrios.

Essas temáticas, juntas, poderiam se perder ou soar dispersas, mas, por se tratar de um dos maiores diretores vivos, a única dúvida que resta é quanto à sua força comercial. No restante, esta obra-prima contemporânea ultrapassa qualquer questionamento adjacente. Para realizar tal façanha, PTA conta com um dos melhores elencos reunidos nos últimos anos. O roteiro se constrói em torno de personagens fortes e complexos, e todos entregam desempenhos contundentes. DiCaprio, já citado, oscila entre drama e comédia em meio ao caos, em uma das três melhores atuações de sua carreira.

Mas este é um trabalho de conjunto. As atuações brilham desde os papéis menores até o elenco de apoio, em especial as figuras femininas. Chase Infiniti é um achado: uma estrela que nasce diante dos nossos olhos. Nada em sua atuação remete a uma novata — ela se coloca em pé de igualdade com veteranas como Teyana Taylor e Regina Hall. Com personalidades completamente opostas, as personagens de Taylor e Hall colocam o estúdio em uma posição difícil na temporada de premiações.

Taylor lidera a revolução de forma explosiva como Perfídia, enquanto Hall entrega vulnerabilidade e densidade intelectual na pele de Deandra. Lágrimas certamente rolarão diante da projeção. Ainda assim, é Sean Penn quem deve levar para casa seu terceiro Oscar. Ele encarna uma caricatura perturbadora da América da era Trump: paranoico, violento, de ideias assustadoramente reais. Seus maneirismos vão do ridículo à repulsa, causando revolta em quem assiste. Um trabalho excepcional, mesmo que Benicio Del Toro, em um longo momento, consiga roubar a cena.

Diante disso, aguardemos os discursos: temos um vencedor claro na temporada.

Nota do crítico: 

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Título: Uma Batalha Após a Outra

Duração: 2h50

Gênero: Comédia, Aventura

Onde Assistir: Cinema

Sinopse: Bob Ferguson, um ex-revolucionário que sai da aposentadoria para enfrentar a missão mais importante de toda a sua vida: resgatar a sua filha. Tendo vivido a juventude como integrante de um grupo de guerrilha, agora a sua fracassada vida o atinge em cheio com frustrações e tristezas quando o mais cruel de sua longa lista de inimigos retorna após passar 16 anos desaparecido e resolve sequestrar a garota.

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